Ficção · 18+Traição · Drama1 min de leitura

Notas de rodapé

Ela corrigia o manuscrito dele com caneta vermelha. Ele respondia nas margens. Na Bienal, as margens não bastaram mais.

A window over a city at night
Photo: Gabrielle Meschini · Unsplash

Luana editava livros havia doze anos e era casada com Rodrigo havia nove. Conhecia todos os truques dos autores, todas as tentativas de sedução disfarçadas de dedicatória. Por isso mesmo achou graça quando Joaquim começou a responder suas correções nas margens do manuscrito.

Você cortou meu melhor parágrafo. Era o pior. Então me ensina a escrever melhor.

Durante seis meses, foi só isso: caneta vermelha, caneta azul, e uma intimidade que crescia em letras miúdas.

A Bienal

O lançamento foi na Bienal do Livro, em São Paulo. Fila de autógrafos, calor, café de máquina. À noite, um jantar da editora num restaurante em Pinheiros. Joaquim sentou ao lado dela e, por baixo da mesa, encostou o joelho no seu. Ela não afastou.

No hotel, ele tirou da mochila a primeira página do manuscrito, toda riscada por ela.

«Guardei», disse. «É a coisa mais bonita que alguém já escreveu pra mim.»

Ela o beijou antes de pensar. O resto daquela noite Luana não editou. Deixou exatamente como aconteceu.

A volta

Rodrigo foi buscá-la no aeroporto com flores. Ela quase contou ali mesmo, no carro. Não contou. Por um ano carregou aquilo como um parágrafo que não se tem coragem de cortar.

Joaquim mandou uma mensagem só, meses depois: Terminei o novo livro. Você vai querer ler.

O livro

O romance saiu no ano seguinte. A protagonista era uma editora casada que corrigia o amante com caneta vermelha. Os detalhes eram exatos demais. O hotel. O joelho embaixo da mesa. A página guardada.

Rodrigo comprou o livro porque tinha o selo da editora da mulher. Leu num fim de semana. No domingo à noite, fechou o livro e perguntou, sem levantar a voz:

«Ela é você?»

Luana olhou para ele por muito tempo.

«Era», disse. «Por uma noite.»

Conversaram até de madrugada. Não terminaram. Também não voltaram ao que eram. Estão escrevendo outra coisa agora, devagar, com muitas rasuras. Ela diz que é o texto mais difícil que já editou.

Esta história é ficção. Todos os personagens são adultos inventados (18+), e qualquer semelhança com pessoas reais é mera coincidência.

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