Ficção · 18+Pés · Praia2 min de leitura

Domingo descalça

Ela saiu do mar com areia até os tornozelos e pediu ajuda. Ele demorou mais do que precisava.

Nail polish bottles on a purple surface
Photo: Cut Collective · Unsplash

Na Joaquina, aos domingos, todo mundo se conhece de vista. Bruno conhecia Luana de vista havia três meses.

Ela surfava de manhã cedo, quando o mar ainda estava liso, e depois deitava na areia com um livro e os pés para o alto, balançando devagar. Bruno ficava a duas cangas de distância fingindo ler também. Não lia nada. Olhava os pés dela: bronzeados, finos, com uma tornozeleira de conchinhas e as unhas pintadas de coral.

Num domingo de janeiro, ela saiu da água, sentou ao lado dele sem cerimônia e estendeu o pé direito.

“Tem um espinho de ouriço aqui, eu acho”, disse. “Você tem cara de quem tem pinça.”

Ele tinha pinça. Ninguém leva pinça para a praia. Ele levava.

O espinho

Não havia espinho nenhum. Ele procurou por um tempo longo demais, segurando o pé dela com as duas mãos, tirando a areia com cuidado, sentindo o calor da pele.

“Bruno”, disse Luana, devagar. “Faz cinco minutos que não tem espinho.”

Ele ficou vermelho como o guarda-sol.

“Eu sei”, admitiu. “Desculpa.”

“Desculpa de quê?” Ela apoiou o queixo na mão e olhou para ele com uma curiosidade divertida. “Três meses me olhando de lado. Achei que era o biquíni. Era o pé?”

“Era o pé”, ele disse, e riu de nervoso. “Sempre foi. Nunca contei pra ninguém.”

A permissão

Luana ficou quieta um instante. Depois esticou o outro pé e colocou os dois no colo dele.

“Então vamos fazer assim”, disse. “Você me conta direitinho o que você gosta. Com palavras. Eu digo o que pode e o que não pode. E você continua tirando a areia, porque está fazendo isso muito bem.”

Ele contou. Do arco do pé, da tornozeleira, de como ela flexionava os dedos quando lia uma parte boa do livro. Ela ouvia com um sorriso, às vezes dizendo sério?, às vezes eu nunca tinha reparado nisso. Quando ele falou das unhas coral, ela levantou o pé e olhou para elas como se fosse a primeira vez.

“Essa cor fui eu que escolhi pra mim”, disse. “A próxima você escolhe.”

O próximo domingo

No domingo seguinte, ele chegou com um vidrinho de esmalte vermelho-escuro e um protetor solar. Ela já estava esperando na canga dele.

“Primeiro o protetor”, disse Luana, esticando as pernas. “Depois o esmalte. Depois você vai aprender a ficar em pé numa prancha, porque eu não namoro quem só fica olhando.”

“Namora?”, ele perguntou.

Ela riu e encostou o pé, quente de sol, no peito dele.

“Vamos ver quantos domingos você aguenta.”

Ele ainda não fica em pé na prancha. Mas não perdeu nenhum domingo.

Esta história é ficção. Todos os personagens são adultos inventados (18+), e qualquer semelhança com pessoas reais é mera coincidência.

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