Ficção · 18+Gótica · Romance2 min de leitura

Meia-noite na Augusta

Ele ajustava o microfone dela toda sexta. Naquela noite, ela pediu que ele ficasse depois do show.

A dark rose on a black background
Photo: Adrian Regeci · Unsplash

Toda sexta-feira, Caio fazia o som de um porão na Rua Augusta onde a luz era roxa e o chão grudava. E toda sexta, à meia-noite, subia ao palco a banda da Morgana.

Ela cantava darkwave com uma voz grave que parecia vir de dentro de uma catedral vazia. Vestido de renda preta, coturno, batom quase negro, delineado até as têmporas e um crucifixo de prata pendurado de cabeça para baixo. Caio ajustava o microfone dela antes de cada show. Ela nunca dizia obrigado. Só olhava.

Naquela sexta, depois do último acorde, ela desceu do palco e parou na frente da mesa de som.

“Você deixa minha voz bonita”, disse Morgana. “Ninguém nunca fez isso direito. Me espera?”

A chuva

Choveu como só chove em São Paulo: de repente, com raiva, alagando a calçada em minutos. Eles ficaram embaixo da marquise de uma loja de discos fechada, ela fumando um cigarro de cravo, ele sem saber o que dizer.

“Você é sempre calado assim?”, perguntou ela.

“Eu trabalho com som. Prefiro ouvir.”

Morgana riu, uma risada inesperada, quase doce. “Então ouve.” E contou: que de dia era bibliotecária numa escola da zona norte; que virou gótica aos quinze, na Galeria do Rock; que a avó rezava por ela todo domingo e mesmo assim costurava os vestidos dela.

“Ninguém me vê de verdade”, disse. “Veem a roupa. Você é o primeiro que olha pra minha voz.”

As regras

Quando a chuva diminuiu, ela apagou o cigarro e se virou para ele.

“Vou ser direta, porque odeio joguinho. Meu apartamento é a três quadras. Quero que você suba. Se não quiser, tudo bem, a gente se vê sexta que vem e foi uma madrugada linda.”

“Eu quero.”

“Então tem regra.” Ela tocou o peito dele com uma unha preta. “Devagar. Você pergunta antes de tudo. E não acende a luz. Nunca. Eu gosto de vela.”

O apartamento era um sétimo andar antigo, cheio de velas, livros de Álvares de Azevedo e discos de vinil. Ela pôs um disco lento e escuro e o puxou para o meio da sala. Ele perguntou. Ela disse sim. Ele perguntou de novo, e ela riu baixinho, sim, Caio, você é educado demais pra essa rua.

O resto fica entre os dois e as velas.

Sexta seguinte

Na sexta seguinte, antes do show, Morgana subiu ao palco e não deixou ninguém mexer no microfone.

“Só ele”, disse para o baixista, apontando para a mesa de som.

Caio ajustou o pedestal. Ela se inclinou e disse, baixinho, fora do microfone: obrigada.

Foi a primeira vez. Não a última.

Esta história é ficção. Todos os personagens são adultos inventados (18+), e qualquer semelhança com pessoas reais é mera coincidência.

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