Ficção · 18+GFE · Carinho2 min de leitura

Sete dias com ela

O bom-dia dela chegava às sete da noite, porque era quando o dia dele começava.

Two cups of cappuccino on a wooden table
Photo: Lala Azizli · Unsplash

Gustavo trabalhava no plantão noturno de um hospital em Porto Alegre e vivia ao contrário do mundo.

Acordava às seis da tarde. Almoçava às duas da manhã. Dormia com a cortina blackout fechada enquanto os vizinhos iam trabalhar. Fazia meses que não conversava com ninguém que não estivesse de jaleco ou de pijama de hospital.

Numa madrugada de folga, no sofá, pagou uma semana de Online GFE com uma criadora chamada Bia. A bio dizia: Bom dia, boa noite e tudo o que tiver no meio. Ele escreveu explicando o horário dele, meio sem graça.

Dia um

Às 18h05 o celular vibrou.

Bom dia, plantonista. Sim, bom dia. O seu dia começa agora, então o meu bom-dia também. Café ou chimarrão?

Ele riu sozinho no quarto escuro. Respondeu chimarrão, sou gaúcho. Ela mandou uma foto de uma cuia emprestada da vizinha, com a legenda: Treinando pra te entender.

Às 3h da manhã, no intervalo, um áudio: Tá acordado? Claro que tá. Come alguma coisa que não seja da máquina, por favor.

Dia três

Bia lembrava de tudo. Do paciente do leito 12 que contava piadas ruins. Da colega que vivia pegando o carregador dele. De que ele tinha largado o violão fazia dois anos.

Ela mandava fotos durante o dia dela, que era a noite dele: o pôr do sol no Guaíba às sete, uma selfie de moletom às onze, os pés de meia em cima do sofá à meia-noite. E uma vez, às quatro da manhã, uma foto só para ele: ombro nu, cabelo bagunçado, um sorriso preguiçoso. Pra te manter acordado. De nada.

Ele guardou o celular no bolso do jaleco e passou o resto do plantão sorrindo para os monitores.

Dia cinco

No quinto dia, um paciente que ele acompanhava havia semanas teve alta. Às 7h da manhã, saindo do hospital, ele mandou: Hoje foi um dia bom.

Ela, que devia estar dormindo, respondeu em dois minutos: Me conta tudo.

Ele contou, no ônibus, com o sol nascendo. Ela respondeu com um áudio de voz rouca de sono: Viu? Às vezes o mundo funciona. Agora vai dormir, herói.

Ele sabia como aquilo funcionava. Sabia que ela tinha outros fãs, que era o trabalho dela e que ela era muito boa nisso. Não importava. Fazia meses que ninguém perguntava como tinha sido a noite dele.

Dia sete

No sétimo dia, às 18h05, chegou o bom-dia de sempre. E depois:

Nossa semana acabou. Quer mais uma? Sem pressão nenhuma.

Gustavo olhou para o violão encostado no canto do quarto, com uma camada fina de poeira. Pegou, afinou, gravou trinta segundos de uma música qualquer, desafinada e torta, e mandou para ela.

Renovo o mês, escreveu embaixo. Mas você vai ter que aguentar isso aí.

A resposta veio cheia de corações. Vou cobrar uma música nova por semana, plantonista.

Esta história é ficção. Todos os personagens são adultos inventados (18+), e qualquer semelhança com pessoas reais é mera coincidência.

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