Caio pediu durante um ano inteiro, sempre de um jeito torto, sempre depois da segunda caipirinha. Renata ria e mudava de assunto. Até que, numa sexta qualquer, ela jogou uma chave de pousada em cima da mesa do jantar.
«Salvador. Feriado de novembro. Eu escolho quem vem. Eu faço as regras. Você só tem uma tarefa.»
«Qual?»
«Abrir a porta para ele.»
Mestre Davi
Ela conheceu Davi numa roda de capoeira no Rio Vermelho, durante uma viagem a trabalho. Conversaram semanas por mensagem antes que ela contasse o plano. Ele respondeu com uma única frase: Só se você estiver no comando o tempo todo. Foi isso que a convenceu.
Na noite combinada, a pousada cheirava a maresia e dendê. Renata sentou o marido numa poltrona de vime perto da janela.
«Se alguma coisa der errado, pra qualquer um de nós três, a palavra é maré. Tudo para. Fora isso, você fica aí e não fala até eu perguntar.»
A porta
Quando bateram, Caio levantou e foi abrir. Foi o momento mais difícil da noite: ver aquele homem alto, tranquilo, apertar a mão dele e dizer «boa noite» com toda a educação do mundo. Caio fechou a porta atrás dele com as próprias mãos. Entendeu ali que tinha escolhido aquilo, inteiro.
Depois voltou para a poltrona.
Renata não tirou os olhos dele. Sorria quando via seu rosto corar, chamava seu nome baixinho quando ele desviava o olhar.
«É isso que você queria?»
«É mais», ele disse.
O que aconteceu depois fica naquela pousada, com o barulho do mar entrando pela janela.
A chave
Quando Davi foi embora, Renata sentou no braço da poltrona e colocou a chave do quarto na mão do marido.
«Agora me conta tudo o que sentiu. Até o que te dá vergonha.»
Ele contou. O ciúme de um minuto. O orgulho que não passou. A sensação estranha de que nunca a tinha visto tão inteira.
A chave nunca foi devolvida à pousada. Eles pagaram a multa com prazer. Ela fica pendurada no chaveiro de Caio, e quando Renata quer lembrá-lo de alguma coisa, só precisa tocá-la com a ponta do dedo.



