A conta do aplicativo de transporte era compartilhada desde o casamento. Paula nunca olhava o histórico. Até a terça em que precisou de um recibo para o reembolso da empresa e viu, uma embaixo da outra, oito corridas do marido para o mesmo endereço na Zona Oeste.
Ela jogou o endereço no mapa. Era um motel.
O jantar
Paula fez o jantar como sempre. Arroz, feijão, o bife que Marcelo gostava. Quando ele sentou, ela deixou o celular aberto ao lado do prato, com o histórico na tela.
Ele empalideceu, gaguejou, disse que tinha acabado, que não significava nada. Ela comeu em silêncio até ele parar de falar.
«Não vou embora», disse então. «Isso seria fácil demais pra você. Você termina com ela hoje. E a conta continua compartilhada.»
«Como assim?»
«Você vai entender.»
As corridas dela
Na sexta seguinte, Paula se arrumou com calma. Vestido vermelho, batom, perfume novo. Pediu o carro pela conta compartilhada, deu um beijo na testa de Marcelo e saiu.
O celular dele vibrou na hora: Paula está a caminho de Rua Oscar Freire.
Ele acompanhou o carrinho no mapa até o bar. Ficou olhando a tela parada por três horas. Depois o carrinho se mexeu de novo, para um endereço que ele não conhecia, num prédio em Higienópolis.
Ela mandou só uma mensagem: Fica acordado. Quero te contar.
O caminho de volta
Paula chegou às três da manhã. Marcelo estava no sofá, o celular na mão, o mapa ainda aberto. Ela esperava raiva. Encontrou outra coisa nos olhos dele: um desejo que ela não via havia anos.
«Me conta», ele pediu. «Desde o começo.»
Ela tirou os sapatos, sentou do lado dele e contou tudo, devagar, sem pular nada.
A conta continua compartilhada. Marcelo agora só pega ônibus. E toda vez que o celular dele vibra numa sexta à noite, ele sabe exatamente o que significa – e espera acordado.



