Gustavo passou três vezes em frente à porta da festa, na Rua Augusta, antes de entrar. Na quarta, a hostess abriu antes que ele tocasse.
«Primeira vez?», perguntou, sorrindo. «Respira. Aqui ninguém faz nada que você não queira.»
Lia
O salão era escuro, cheio de veludo e luz baixa. No canto, num sofá verde-musgo, uma mulher de vestido preto lia um livro como se estivesse na sala de casa. Cabelo cacheado, unhas escuras, uma tranquilidade que parecia ocupar o lugar inteiro.
Gustavo não conseguiu parar de olhar. Depois de vinte minutos, ela fechou o livro sem levantar a cabeça.
«Você vai ficar aí em pé a noite toda?»
Ele se aproximou. Ela apontou para o tapete ao lado do sofá.
«Ali. No chão. O sofá é meu.»
A regra
Ele sentou no tapete. Ela se chamava Lia, e antes de qualquer coisa quis conversar. Perguntou o que ele procurava, o que o assustava, o que nunca. Ouviu tudo com atenção de terapeuta.
Depois explicou a regra.
«Enquanto estiver no chão, quem decide sou eu. Tudo. Se quiser parar, é só levantar e dizer veludo. Acabou, sem drama, ninguém olha torto.»
«E o sofá?»
«O sofá é um prêmio», disse ela. «Talvez hoje. Talvez nunca.»
Merecer
Ela o fez esperar, pedir, ficar imóvel enquanto conversava com outras pessoas como se ele não estivesse ali. Às vezes passava a mão no cabelo dele, distraída, e aquele gesto pequeno valia mais que tudo. Depois, num reservado nos fundos, foi ela quem conduziu cada segundo. O que aconteceu lá fica lá.
Perto das três, Lia bateu de leve no assento ao lado.
«Sobe.»
Gustavo sentou no veludo verde como quem recebe uma medalha. Ela encostou a cabeça no ombro dele por um minuto inteiro, sem dizer nada.
Ele voltou todas as últimas sextas do mês desde então. Na maioria das vezes, passa a noite no tapete. Nunca reclamou. Descobriu que gosta mais do chão do que de qualquer sofá.



