Foi uma amiga quem mandou o print. “Paula, essa não é você?”
Era. As fotos do casal – as discretas, que eles postavam num fórum fechado havia dois anos – estavam num perfil falso, com outro nome, vendendo “pacotes” por Pix.
Paula passou uma noite inteira com raiva. Rodrigo, o marido, passou a noite vendo ela com raiva e se apaixonando de novo.
“Sabe o que a gente vai fazer?”, disse ela às três da manhã, na cozinha do apartamento no Santo Antônio. “A gente vai provar que é a gente.”
A folha de papel
A regra do fórum para verificação era antiga e simples: uma foto, no dia, segurando um papel escrito à mão com o usuário, o nome da comunidade e a data.
Paula escreveu com uma caneta azul, na letra mais caprichada que tinha. Rodrigo tirou a foto: ela de camiseta velha, cabelo preso, olhando direto para a câmera com uma expressão de quem não perdia uma briga.
“Mais uma”, disse ela. “Agora com você.”
Eles fizeram a segunda foto juntos, ele atrás dela, com o queixo no ombro. Os moderadores aprovaram em uma hora. O perfil falso foi derrubado em três dias.
“Casal verificado”, leu Rodrigo em voz alta. “Parece título de filme.”
As regras
A comemoração foi ideia dela, e ninguém se surpreendeu.
Havia um homem no fórum com quem eles conversavam havia meses, verificado também, educado, que sempre perguntava a opinião de Rodrigo antes da de Paula. Chamava-se Daniel. Eles o encontraram três vezes antes de decidir qualquer coisa: um café, um almoço, uma tarde na Praça da Liberdade.
Na terceira, Paula tirou da bolsa a mesma folha de papel da verificação e escreveu no verso:
1. Rodrigo fica no quarto. 2. A palavra para parar é “Pampulha”. Qualquer um pode dizer. 3. Depois, Daniel vai embora e a gente conversa.
A noite
Foi num hotel na Savassi, num quarto alto com a serra ao fundo. Rodrigo sentou na poltrona perto da janela. Paula estava de vestido vinho, o mesmo que tinha usado no noivado.
Antes de tudo, ela foi até a poltrona, segurou o rosto do marido e beijou devagar. “Ainda quer?”
“Mais do que nunca.”
O que aconteceu depois foi calmo, cuidadoso e exatamente o que tinham combinado. Ela se virava de vez em quando para procurar os olhos dele, e cada vez que encontrava, sorria um sorriso que era só dele. Ninguém disse Pampulha.
A prova
Quando Daniel foi embora, Paula se enroscou no colo de Rodrigo e ficou um tempo calada.
“Sabe qual é a graça?”, disse por fim. “Aquele perfil falso vendia fotos nossas. Mas não tinha isso.” Ela apontou para os dois, para o quarto, para a cidade lá embaixo. “Isso ninguém rouba.”
A folha de papel, com a verificação de um lado e as regras do outro, está numa moldura no corredor. As visitas acham que é arte moderna.



