Felipe se mudou para o prédio em Curitiba numa segunda. Na quarta já tinha estacionado na vaga errada. Na sexta, deixou a bicicleta no hall. No sábado, colocou música alta depois das dez.
No domingo, achou um bilhete embaixo da porta, numa letra elegante:
Três infrações. Compareça ao 902 às 22h. Traga o regulamento. – Beatriz, síndica.
O 902
Beatriz tinha quarenta e oito anos, cabelo curto grisalho e óculos de armação fina. O apartamento era impecável. Ela o mandou sentar na cadeira em frente à sua mesa e estendeu a mão para o regulamento.
«O senhor leu?»
«Por cima.»
«Foi o que imaginei.» Ela folheou as páginas. «Tem gente que quebra regras por descuido. E tem gente que quebra porque quer que alguém repare. Qual é o seu caso?»
Felipe ficou vermelho. Ela sorriu, devagar, como quem já sabia a resposta.
O regulamento dela
Ela tirou da gaveta outra folha. Não era do condomínio.
Era uma lista escrita à mão, com espaços em branco. O que você quer. O que nunca. Até onde. E, embaixo, uma palavra só: vermelho.
«Se disser essa palavra, eu volto a ser a síndica chata do nono andar e você volta a ser o vizinho da bicicleta. Sem rancor, sem fofoca no elevador. Combinado?»
Ele preencheu a lista em silêncio. Ela leu, ergueu uma sobrancelha num ponto ou dois, e guardou.
«Agora vamos falar das multas.»
As multas
As multas eram dela. Cada infração, uma regra a cumprir naquela noite: onde se ajoelhar, quando falar, quanto esperar. Beatriz quase não o tocava, e a ausência do toque era o que mais o desmontava. O que aconteceu no 902 fica no 902.
À meia-noite, ela devolveu o regulamento do condomínio.
«Leia inteiro. Na próxima infração, a multa dobra.»
Felipe leu o regulamento três vezes. Decorou cada artigo. E mesmo assim, por algum motivo, sua bicicleta continua aparecendo no hall toda sexta-feira.



