Alex tinha 24 anos, passava o verão em Lisboa estagiando em um escritório de arquitetura e morria de medo de Helena.
Ela tinha 41, era a sócia sênior e comandava o escritório como algumas pessoas regem orquestras – com calma, precisão e nenhuma paciência para bobagem. Usava linho, brincos de prata e nenhuma maquiagem, e quando olhava os seus desenhos ficava em silêncio de um jeito que parecia uma sentença.
Na primeira semana dele, ela olhou o projeto de escada que ele tinha feito por um minuto inteiro e depois disse: “Você tem medo do espaço vazio. Não tenha. O espaço vazio é onde as pessoas respiram.”
Ele pensou nessa frase por dias.
Noites longas
Em julho, o escritório tinha o prazo de um concurso. Por duas semanas ficaram até tarde, a equipe toda, depois cada vez menos gente, até que numa noite eram só os dois, a cidade zumbindo pelas janelas abertas e uma garrafa de vinho verde em cima da mesa de maquetes.
Ela perguntou sobre a vida dele. Ele contou mais do que pretendia – sobre a ex, sobre não saber se era bom. Ela ouviu de verdade, como pessoas mais velhas às vezes ouvem, sem esperar a vez de falar.
“Você é bom”, ela disse por fim. “Só ainda não sabe. É a idade.”
“Você também era assim?”
Ela riu. “Aos vinte e quatro? Eu era um desastre. Estava apaixonada por um escultor casado e achava que tristeza era personalidade.”
Ele riu também, e quando levantou os olhos ela o observava com uma expressão que ele não conseguia decifrar.
O terraço
Eles ganharam o concurso. O escritório comemorou no terraço de Helena – cheio de limoeiros, com vista para o rio. À meia-noite, os outros já tinham ido embora. Alex ficou para ajudar a levar os copos, o que era uma desculpa péssima, e os dois sabiam.
Ela estava no parapeito, de vestido branco, descalça, olhando as luzes sobre a água.
“Você passou o verão inteiro olhando para mim”, ela disse, sem se virar.
Ele sentiu o rosto esquentar. “Desculpa. Não queria te deixar desconfortável.”
“Eu não disse que estava desconfortável.” Ela se virou. “Eu disse que você estava olhando.”
Foi ela quem decidiu. Era disso que ele lembraria depois – que ela estava completamente segura de si, completamente calma, e que perguntou: “Você quer isso? De verdade?” e esperou uma resposta sincera.
“Quero.”
Ela o beijou devagar, como alguém que não tinha para onde ir. A mão dela estava fria contra a nuca dele. Os limoeiros se mexiam no vento quente.
O resto da noite pertenceu aos dois, à porta aberta do terraço e aos sons da cidade lá embaixo. Ele aprendeu que a autoconfiança é a coisa mais atraente do mundo – e que o espaço vazio é mesmo onde as pessoas respiram.
Setembro
Os dois sabiam que era um verão. Ela disse isso já na primeira manhã, tomando café, com gentileza e sem drama, e ele a amou um pouco por ser honesta.
No último dia dele, ela devolveu o desenho da escada com uma linha alterada – tinha apagado metade dos degraus e deixado um patamar aberto no meio, cheio de luz.
Embaixo, tinha escrito: Não tenha medo do espaço vazio.
Ele tem esse desenho emoldurado em cima da mesa.



